domingo, 24 de junho de 2012

LUTA POR UMA CIDADE MAIS CIVILIZADA -“O OUTRO LADO DO MURO – INTERVENÇÃO COLETIVA”


CARTA AO MOVIMENTO
“O OUTRO LADO DO MURO – INTERVENÇÃO COLETIVA”
PAISAGEM, MEMÓRIA E CIDADE, UMA INTERVENÇÃO COLETIVA

São Paulo precisa de áreas livres, de mais verde, de preservar seus rios. Todos dizem isto, desde o mais simples cidadão ao mais letrado e estudioso. Mas, quem se compromete com esta conquista? É um problema dos governos, dos ambientalistas, dos geógrafos, dos hidrólogos, dos agrônomos, dos arquitetos, dos engenheiros?

Penso que a resposta é não, este é um problema de interesse de todos. Um problema de interesse público, e principalmente daqueles que têm responsabilidade na construção da cidade, da dona de casa e do empresário.

O Estatuto da Cidade estabelece que toda propriedade deve cumprir uma função social. Creio que função social quer dizer interesse coletivo, de acordo com os interesses da sociedade e não apenas fornecer lucro a aqueles que são proprietários.
Temos o direito de enxergar a nossa paisagem natural e o dever de preservá-la. Ver os limites da cidade, ver os rios, ver a vegetação. Onde estão nossos rios? Onde estão as montanhas e os montes que os portugueses conheceram quando aqui chegaram?
Faz tão poucos anos, somente 458 anos. Esta é a idade de nosso aglomerado urbano criado pela instalação de um colégio jesuíta, melhor não poderia ser de termos uma escola como símbolo de nossa fundação.

E foi aqui nos campos de Piratininga com uma riquíssima rede hidrográfica que nasceu a grande metrópole que se tornaria a locomotiva do país. Ela cresceu, cresceu, tanto que agora precisa se cuidar. Seus habitantes querem qualidade de vida, espaços públicos bem cuidados, ver nossos rios limpinhos onde as crianças possam aprender a cuidar da natureza. Outros países muito menores que o nosso dão este exemplo.

Então é preciso entender esta paisagem tão bonita formada por dois grandes rios, o Tietê e o Rio Pinheiros e suas planícies tão vastas que a cidade ocupou suas várzeas, divididas por um espigão, no alto da Avenida Paulista que organiza as nascentes que formam seus afluentes.

Na Vila Mariana a várzea do Rio Pinheiros chegou bem perto do Ibirapuera. É das encostas do espigão da Avenida Paulista, da Avenida Vergueiro, da Avenida Jabaquara que se escondem as nascentes que correm sob as avenidas, sob prédios, por galerias para chegar ao Córrego do Sapateiro atravessando primeiro o Lago do Ibirapuera para que pudéssemos usufruir do Parque mais bonito e mais usado da cidade.

Uma dessas pequenas nascentes forma um riozinho chamado Boa Vista, na meia encosta do espigão onde se situa a Rua Humberto I. Há registros de sua existência em plantas da Prefeitura do início do século XX, nas fotos aéreas da década de trinta, no Plano de Avenidas de Prestes Maia e felizmente apesar de ele ter sido canalizado ainda não foi construído nada sobre ele, mas sabemos que ele alimenta o lago do Ibirapuera, que ele extravasa no período das chuvas mais fortes no encontro das galerias da Rua Amâncio de Carvalho, antigo caminho do Matadouro Municipal, com a Rua Maestro Callia.

Ele está ali vivo nos dizendo: “venham me ver, tragam as crianças para conhecer um rio, deixem os idosos tomar sol às suas margens, me deixem correr devagar e me espalhar pelas margens para evitar as enchentes lá embaixo na Avenida 23 de maio, deixem o barulho da água embalar o sono dos que descansam, tragam os passarinhos para beber água, deixem eu fazer parte do espaço público”.

Mas, este rio é propriedade privada, cercado por um muro na Rua Conselheiro Rodrigues Alves na altura do número 570, onde havia a Fábrica de Cera Record.

A fábrica desativada há anos e demolida há pouco mais de cinco anos, como inúmeras outras fábricas que deram origem ao bairro, cumpria a função social como quer o Estatuto da Cidade, pois empregava inúmeros trabalhadores, dizem até que o “Arnesto”* do samba de Adoniran Barbosa.

É preciso resgatar a paisagem e sua memória onde ainda for possível em São Paulo, e onde ela clama por isso, a cidade necessita que seus moradores se sintam parte de sua história e cuidem dela. Por isso, consideramos que os projetos de empreendimentos mesmo que privados devem dialogar e devolver à paisagem aquilo que lhe pertence e tornar público aquilo que é de interesse público.

Talvez a generosidade dos empresários que querem construir apartamentos na Rua Conselheiro Rodrigues Alves, para vender de forma legítima, associada à austeridade do poder público de defender os interesses coletivos, a memória e o meio ambiente para o futuro dos cidadãos, possa construir um novo caminho para reconstrução da qualidade de vida de São Paulo e regulamentar os impactos ambientais e a defesa do patrimônio imaterial que significam as paisagens que contextualizam os rios da cidade.

Rosana Helena Miranda. Profª Drª da FAUUSP. São Paulo, 20-05-2012.
*Segundo o site http://www.saopaulominhacidade.com.br





Ricardo Fraga, engenheiro agrônomo, cidadão, gente que faz a cidade despertar 
para uma consciência coletiva de paz, solidariedade e comunidade.

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