quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Bienal, direitos civis, cidade e obra de arte



Caminhei durante quatro horas à deriva pela Bienal de artes no último sábado. Fazia alguns anos que não ia à Bienal de artes e fiquei com muito boa impressão na última que visitei. Uma obra me marcou na mostra visitada anteriormente, a de um artista chinês que fez um painel numa parede com aproximadamente quinze metros de comprimento, onde inúmeros quadros formando pares em que um quadro apresentava o desenho de uma pessoa que o artista desenhara o outro era um desenho sem muitas proporções, onde não havia dúvidas de que o artista pedira a seu modelo que o desenhasse. Os desenhos dos modelos eram mais rudimentares mas igualmente expressivos e bonitos como os do artista. Havia outro aspecto diferente da ultima Bienal, as telas apresentavam-se emolduradas e com um projeto claro de percurso a ser realizado pelo visitante.

O que vi de diferente nessa mostra foi a caminhada errante pelos espaços com os temas das lutas dos direitos civis, homossexualismo em diversos momentos da história da humanidade e nacionalidades diferentes, aborto, violência étnica, xenofobia, a guerra, a luta indígena, a violência nas mais variadas formas. E os jovens. Principalmente os jovens com seus anseios e a falta de perspectiva no mundo atual.

Vi vários filmes e áudios como expressão das tecnologias contemporâneas permeados por salas de pinturas e instalações cujos temas incluíam a educação, o meio ambiente e objetos tecnológicos ou de cunho artesanal. Os tecidos e batiks foram os desenhos mais bonitos que vi.


E dois vídeos em particular, um de um jovem rapper de Istambul dançando sobre as ruínas dos muros da época do Império Romano. Estive em Istambul em 1996 e conheci estas ruínas. Foi um dos passeios mais interessantes que já fiz. Sozinha, um pouco com medo, visitei a periferia urbana. Havia alguns conjuntos habitacionais de três ou quatro pavimentos e encontrei com alguns garotos que jogavam bola. Na Turquia pouco se fala inglês, mas esta era a língua possível de eu me comunicar, eu estava lá por causa da Conferência da ONU Habitat II.

Mas, não sei como comecei a conversar com os garotos e um deles me entendia um pouco e quando disse que era do Brasil eles se animaram, falamos de futebol e eles conheciam o Parreira que era técnico do time turco Fenerbahce e me contaram que eram da Romênia.

Eu sempre me surpreendi com a capacidade das crianças se comunicarem em outras línguas, principalmente os imigrantes. Tive uma experiência semelhante quando estudei alguns meses na Holanda e conversei com crianças marroquinas, que também entendiam um pouco do inglês.




Aqui também andei à deriva no texto como na Bienal, voltemos a ela então. O filme do  jovem rapper na verdade era um clipe com dança e cenas de violência policial e provavelmente a letra tratava disso pela agressividade na expressão do cantor e da exclusão social em que vivem os jovens no mundo capitalista e a paisagem de fundo era a cidade de Istambul cheia de suas contradições e suas mesquitas marcando a paisagem a partir da vista de suas ruínas. A cidade como obra de arte.




O outro filme interessante tinha o ritmo de uma peça teatral onde jovens atores russos questionavam sua existência e as respostas da sociedade sobre seus anseios. Os atores sentados num estúdio com uma pequena arquibancada faziam uma dança de expressões corporais e faciais enquanto um deles falava em uma das telas quase como que um depoimento. Eram três na sala. Numa delas um outro jovem olhava impávido, mudo ao expectador. Em uma das falas uma crítica ao governo de Putin. E lendo a notícia na internet de que o sistema público de educação e saúde da Rússia vai se privatizar começo a compreender algumas das falas. Todos os jovens homens e mulheres lindos e de variado tipo físico mostrando a composição multifacetada dos russos. Em um determinado momento do filme eles se referem à orelha da sociedade e solenemente dois deles entram na sala carregando uma enorme orelha de borracha. E concluem que a orelha da sociedade só os ouviria se eles falassem entre si. E assim começam alguns diálogos e uma movimentação corporal de diferentes formas e ritmos. Não assisti a todos os capítulos do filme, mas, confesso que fiquei curiosa sobre seu final e assistiria de novo para compreender todas as falas. Mas, tive que escolher e seguir meu percurso pela Bienal pois no dia seguinte se encerrava.


Algumas instalações pareciam ser de uma feira de ONGs, faixas com frases-denúncia e os comoventes depoimentos de mulheres que já fizeram aborto e lutam pela sua legalização.
Uma luta justa e que começa a ganhar o espaço da mídia infelizmente pela tragédia da morte de mulheres vítimas da pobreza que não podem pagar por aborto seguro.


Uma Bienal onde os processos de luta contra todos os tipos de violência no mundo foram a matéria prima de artistas de diferentes linguagens em que a decadência do capitalismo mostra-se no vazio da estrada sem rumo em que jovens vagueiam olhando para um muro.


Mais uma vez a obra de Niemayer participa da mostra com as surpresas que o edifício oferece a cada nova instalação.