segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Vale do Anhangabaú, seu significado e o arquiteto Artigas.

Texto escrito em 25-04-2001.

Quando era criança lembro-me que meu pai me levava junto com meus dois irmãos menores para ver no Anhangabaú o desfile militar da “Parada de 7 de Setembro”. Ficávamos no jardim da encosta do vale entre a Praça das Bandeiras e o Viaduto do Chá, e o desfile acontecia na avenida embaixo, fechada naquela data para o trânsito. Lembro que eu tinha uns sete anos de idade e meus olhos não alcançavam o desfile pois era muito pequena e a multidão na frente se amontoava para ter a melhor visão.

Mesmo assim, sem ver direito, me emocionava com o som das bandas que tocavam nossos hinos e marchas militares e ao ver a bandeira brasileira hasteada no alto. Aquilo me enchia os olhos de lágrimas e fechava a garganta, mas, eu não entendia direito porque.

Acho que sabia que havia alguma coisa relacionada ao sentimento da pátria. Meu pai havia sido sargento durante a segunda guerra e ficou no exército em Santos até que a guerra acabasse e nos contava suas estórias e as suas fotos de uniforme militar fizeram parte da memória da família.

Nessa época, por volta do ano de 1962, íamos de ônibus da avenida do Estado na Moóca, onde morávamos, até a Praça Clóvis e depois íamos à pé até o Vale do Anhangabaú. Agora me dou conta de que ainda não estávamos sob a ditadura militar.

Mais tarde, quando já tinha dezessete anos, em 1972, desfilei no carnaval numa escola de samba chamada Tom Maior, em plena avenida São João. O desfile começava na Praça Júlio Mesquita e terminava no cruzamento com o Vale do Anhangabaú em frente ao prédio dos Correios, onde as escolas se dispersavam.

Mais uma vez a emoção enchia meu coração e a garganta de novo ficava engasgada. Quando acabávamos o desfile ficávamos perambulando na lateral do desfile acompanhando o som dos desfile das escolas mais importantes. A Vai Vai, a Camisa Verde tão querida pela população. De vez em quando era possível se espremer na multidão e ver um pedaço do desfile como no 7 de Setembro.

Nunca soube direito o que esses dois momentos na vida de uma futura arquiteta formada pela FAU, tinham em comum, até conhecer recentemente, o projeto do Artigas para o vale do Anhangabaú.

Era o sentido do espaço do povo.

Fui a muitos comícios no Vale. Sem dúvida o que mais emocionou foi o das Diretas Já. As fotos da época mostram o Vale tomado pela multidão desde o Viaduto do Chá até depois do Santa Ifigênia. Eu estive lá e me orgulho disso. Pena que meus filhos não conheceram o Vale desse jeito. Mas eles já foram a vários comícios comigo nas campanhas eleitorais.

Quando trabalhava no edifício Martinelli em 90, 91 e 92, freqüentei o Vale nos shows que a Prefeitura promovia às sextas-feiras e nos aniversários de São Paulo. Depois eles foram proibidos por um tal prefeito antipovo que obrigou que as festas populares só acontecessem no sambódromo. Acho que os banqueiros do Vale não gostam dessas festas. Talvez eles não gostassem do Artigas também.

Foram momentos de lazer interessantes mas achava que faltava algo. Não tinha a mesma emoção da minha infância e adolescência. Pois quando tudo acabava, o Vale parecia sem vida. Os carros agora passavam por baixo e o Vale não era mais uma arquibancada para vermos as festas e desfiles.

Até o rio Anhangabaú que já está canalizado desde 1906 se ressente das soluções urbanísticas adotadas. Todo mês de janeiro é necessário que se monte um esquema especial de fechamento do túnel do Anhangabaú para que as pessoas e os veículos não corram riscos de afogamento como fatos ocorridos há poucos anos atrás.

Costumo brincar que as águas que ali se acumulam são movidas pelas almas dos indígenas que habitaram essa região antes das chácaras de chá para lembrar–nos sempre que ali existe um rio de águas profundas. Brincadeiras à parte, de fato, a construção do túnel rebaixou a pista e o lençol freático alto dificulta a contenção das águas na época das chuvas.

O projeto de Artigas contemplou essa visão de que o Vale deveria continuar a ser um vale, mas seria necessário valorizar o espaço do pedestre que se utilizava do Anhangabaú. Era preciso não negar a história do rio e daquele espaço que serviu de passagem para milhares de viajantes que chegavam na vila sede da capitania e outros que mais tarde, aqui passavam para se dirigir às “minas gerais”.

A praça das Bandeiras sempre foi esse grande entroncamento de caminhos e lugar das trocas, chegada de tropeiros que ali se abasteciam e compravam e vendiam seus animais de transporte na época colonial. Talvez esta vocação se firme na localização do terminal de ônibus e na presença dos ambulantes tão perseguidos. Acesso ao chafariz do Piques, bela solução arquitetônica que liga a cidade do vale com a cidade da encosta.

Caio Prado Júnior descreve com muita clareza o lugar da fundação da cidade de São Paulo e a riqueza de seu sítio que propiciou a configuração geográfica da metrópole paulistana.

“Os três rios, Tietê, o Tamanduateí e o Pinheiros, correm em largas várzeas de chão plano que unindo-se na confluência deles, isolam um maciço de forma alongada na direção leste - oeste, com altitudes várias que atingem em alguns pontos 820m, isto é, pouco mais de 100m acima do nível das baixadas que o limitam, foi aí que a cidade nasceu e se irradiou em todas as direções. O espigão mestre do maciço paulistano é acompanhado pela rua Domingos de Morais, avenida Paulista, avenida Dr. Arnaldo, Alto do Sumaré, prolongando-se até o alto da Vila Pompéia, onde o terreno descamba à procura da confluência do Pinheiros e do Tietê. Na vertente mais importante voltada para o norte em direção ao Tietê encontra-se o setor mais antigo e o núcleo central da cidade. Nesse setor estão os riachos canalizados do Anhangabaú, seus dois afluentes, Saracura e Bexiga e o Pacaembu, que cavaram leitos profundos pela alta pluviosidade e a baixa resistência dos terrenos. Disso resultou compartimentos de comunicação difícil entre si que obrigaram à construção de viadutos: Santa Ifigênia, do Chá, Major Quedinho, Martinho Prado, Maria Paula”.
“A cidade nasceu justamente sobre o promontório que forma a várzea do Tamanduateí de um lado, e o Vale do Anhangabaú do outro, dominando aí a planície extensa formada por aquela várzea e a do Tietê, no ponto em que confluem. Esse foi o local escolhido pelos primeiros povoadores brancos da cidade em virtude das vantagens estratégicas que oferecia para um núcleo que contava pela frente com a hostilidade do gentio, e é naquele promontório, que na terminologia corrente passou a chamar-se a “colina central”, que se fixou o centro da cidade, reproduzindo o atual Triângulo, como são conhecidas as três ruas principais - Quinze de Novembro, São Bento, e Direita, dos primeiros caminhos do pequeno arraial de jesuítas, índios, mamelucos e uns poucos brancos”. “Daí irradiou a cidade; e as linhas pelas quais se fez esta irradiação que acompanhou, como era natural, as antigas estradas, fixaram o traçado das grandes artérias de hoje”.O rio Anhangabaú junto com o Tamanduateí já abasteceu a cidade, sendo que o primeiro sistema de adução por condutos de água foram feitos pelos frades franciscanos em 1744. A maior parte da população se abastecia nesses rios, que apesar de serem águas correntes, eram poluídos pelas lavadeiras e pelas águas servidas da vila.

O chafariz do Piques só foi construído em 1814.

Esses fragmentos da história da cidade de São Paulo estão soterrados por obras urbanísticas que não valorizaram os aspectos geográficos e as marcas deixadas por aqueles que fizeram nossa história.

O local onde se localiza o rio Anhangabaú foi assim descrito por Taunay: ... “no beiço da escarpa que dá para o Anhangabaú, sulco profundo onde crescia espesso mato e onde a lenda selvagem fazia deslisar misteriosamente essa ‘água da maldade’, rasgava-se o caminho de cintura, mais tarde transformado em rua de Martim Affonso, e hoje de São Bento, outrora habitado em sua maior extensão pela gente de Tibyriçá”.

Maria Vicentina do Amaral Dick escreve a respeito do significado do nome do rio: “Toda região do Anhangabaú de baixo, onde hoje se assenta a avenida São João, em seu ponto inicial, na confluência com a avenida Prestes Maia, foi conhecida por Acu; o declive da praça Antônio Prado era designado por ladeira do Acu. No encontro com a antiga rua do Seminário, havia uma pequena nascente denominada bica do Acu, que ,depois de se juntar com as águas do Tanque do Zunega, ia desaguar no Anhangabaú; a ponte que corria por cima do ribeirão chamava-se também ponte do Acu. Tudo , portanto , no local, era identificado por um só termo – Acu - , bastante carismático, assim , para designar vários acidentes”.

O projeto de Artigas para o vale do Anhangabaú continha a leitura desse palimpsesto e propunha a valorização e interligação por meio de passarelas dos espaços de efervescência humana. Assim é a Praça das Bandeiras que deveria se conectar de maneira direta com o Vale.

O Vale do Anhangabaú possui o conteúdo do principal espaço cívico na história de São Paulo, assim como o Pátio do Colégio simboliza o nascimento da vila, esse é o espaço de reunião por excelência da nossa história mais recente, além de seu significado de eixo de ligação norte sul e norte oeste da cidade, pois sua transposição e ocupação remonta a pouco mais que um século.

Os projetos de recuperação do uso e integração do Vale a outras regiões da cidade devem considerar essa carga de conteúdo histórico de sua existência.

Talvez o projeto de Vilanova Artigas possa ser resgatado na sua metodologia, de promover um processo de planificação que recupera os projetos e pensamentos anteriores a qualquer intervenção urbanística. Parte desse projeto ainda teria sentido de se executar no que se refere ao terminal da Praça das Bandeiras e ao tratamento dado a toda avenida Nove de Julho, no seu significado de ligação entre o rio Tietê e o rio Pinheiros.

Bibliografia

BRUNO, Ernani da Silva. História e tradições da cidade de São Paulo. Rio de Janeiro, José Olympio, 1954. 3 vol.

DICK, Maria V. de Paula do AMARAL. A Dinâmica dos Nomes na Cidade de São Paulo, 1554- 1897. 2ª ed. São Paulo, Annablume, 1997.

PORTO, Antônio Rodrigues. História Urbanística da Cidade de São Paulo (1554-1988). São Paulo, Cartago & Forte, 1992

PRADO JÚNIOR, Caio. Evolução política do Brasil e outros estudos. A cidade de São Paulo. Geografia e História. O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da cidade de São Paulo Contribuição para a geografia urbana da cidade de São Paulo - Publicado em Geografia (órgão da AGB), n.º 3, set. 1935, 4ª ed., São Paulo, Brasiliense, 1963. pg. 95 a 146.

TAUNAY, A. E. São Paulo no século XVI. História da vila piratiningana. Tours, E. Arrault et Cie., 1921, p.96


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